Araraquara, 12 de março de 2010
terça-feira, 28 de julho de 2009
Mudar para permanecer como está
No Brasil, completamos seis meses da chegada da crise mundial. Aqui, totalmente partidarizada - algumas vezes sob a capa da analise técnica, outras, por puro exercício de “achismos” -, temos a percepção, dependendo do analista de plantão, de que saímos da crise melhor do que entramos. Ou que se trata de uma questão de tempo para que a economia, artificialmente inflada, leve-nos de vez para o buraco do qual saímos, por pura sorte e pelos bons ventos soprados pela economia mundial.
Achar o equilíbrio nesse jogo político é um exercício interessante. Até porque extrapola as nossas fronteiras. E como é sempre bom ouvir elogios, gostamos de saber que somos presididos pelo “O Cara”; ou que sairemos da crise como a quarta economia do mundo; que o Brasil, finalmente, encontrou seu futuro... Queremos acreditar. Mas, mais que acreditar, gostaríamos de investir, não nos sonhos, mas na realidade, pois a crise vai se acomodando no mundo todo e pouco se ouve falar sobre como coibir suas principais causas.
Os aspectos éticos e morais, tão difundidos e questionados pelo mundo civilizado - quando se trata de “apontar o dedo” para os países em desenvolvimento -, continua em riste. É pronto e rápido. Mas, pedir que tratem de suas mazelas internas: “isso é que não!”, diz o Leão, como na história infantil, na qual o mais forte dita as regras, mas não as segue.
Há duas décadas importamos os conceitos de Responsabilidade Social e introduzimos na nossa agenda. Mas, na crise, vimos “ruir” os seus pilares: Ética, Transparência e Governança Corporativa.
Por sorte, fomos aprendendo que as empresas e o Terceiro Setor, sozinhos, não seriam capazes de minimizar os efeitos sociais perversos da Globalização, como faziam crer aqueles que defendiam que o mercado tudo regula. Aprendemos que a Responsabilidade Social não pode estar afastada da empresa: tem que fazer parte do negócio.
Aqueles que, ontem, defendiam a livre regularização dos mercados, hoje, mudam o foco e defendem uma economia “mais verde” no pós-crise. Nada contra uma economia mais verde. Aliás, tudo a favor. Mas sem esquecer da Ética e da Responsabilidade Social, para alcançarmos a verdadeira sustentabilidade. Espero que, dessa vez, não tenhamos que passar mais 20 anos para perceber, como no caso da propalada Responsabilidade Social, que as regras vieram “de encomenda” para os países em desenvolvimento.
Pois, se o jogo econômico do pós-crise fosse igualitário e inclusivo - como se quer fazer crer -, os Estados Unidos e a União Europeia teriam incluído, na lista dos 43 produtos que terão suas tarifas comerciais eliminadas por serem benéficos ao Meio Ambiente, o Etanol. O Etanol não está sendo considerado como produto que combate a emissão de gás carbônico, logo, não faz parte da lista.
Aliás, essa lista, em sua maioria, é composta por tecnologias, partes e peças, para a produção de outras formas de energia limpas, cujos processos os países do BRICS não detêm. Com tarifa zero, estarão “ajudando os pobres” na diminuição de suas emissões de carbono. Na mesma proporção, impondo barreiras ambientais e sociais aos produtos desses países.
E, enquanto internamente preocupamo-nos com um ponto a mais ou a menos do Produto Interno Bruto (PIB) de 2009/2010; com o investimento internacional na Bovespa; se o capital especulativo deve ou não ser taxado; ou nos deliciamos com o sucesso do modelo de regulação bancário brasileiro, que deveria ser copiado pelo mundo todo... Em silêncio, e organizadíssimos para Copenhague, os Estados Unidos e a Europa, mais uma vez, imporão a estratégia do “mundo desenvolvido” clamar por mudanças para permanecer como está; para prevalecer a relação de supremacia econômica, política e social.
Dessa vez, a nobre causa é a salvação do mundo e das várias espécies de vida, inclusive a humana. Porém, novamente, os países em desenvolvimento ficarão dependentes dos produtos e serviços dos países ricos, agora, para atender a chamada “Economia Verde”.
A Mostra Fiesp/Ciesp de Responsabilidade Socioambiental está convocando empresários, juristas, diplomatas, acadêmicos, especialistas, governos e a sociedade civil organizada para discutir, sob a luz do interesse do nosso País, esse e outros temas. Para induzir ao desenvolvimento sustentável, com equilíbrio econômico, social e ambiental, mas pela ótica universal, considerando e respeitando o conhecimento e as tecnologias de qualquer parte do mundo dito civilizado, em especial, aquelas que, além de verde, sejam “verde e amarelo”.
* Eliane Belfort é empresária, Diretora do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) e Vice-presidente do Conselho Superior de Responsabildade Social (Consocial) da Fiesp
Eliane Belfort*