Araraquara, 09 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Nacional: PM apura ronda de policiais em casa de repórter
O comando da Polícia Militar do Rio determinou a abertura de averiguação para apurar as razões da presença de PMs nas vizinhanças do apartamento do repórter Raphael Gomide, do jornal "Folha de S.Paulo". O jornal publicou reportagem em que Gomide relatava como são treinados os recrutas que entram na corporação.
Aprovado em todas as etapas -inclusive no exame de pesquisa social-, Gomide ingressou no Curso de Formação de Soldados, no qual permaneceu de 3 a 25 de janeiro. Desde essa data, há quase quatro meses, está desligado da corporação.
Hoje, dia seguinte ao da veiculação da reportagem -que mostra da falta de papel higiênico para os alunos até os poucos tiros disparados no treinamento-, um subtenente e um sargento da PM, vestidos com roupas civis, estiveram no prédio em que o repórter mora e interrogaram dois porteiros, a síndica e uma moradora. Mostraram fotografias e cópias de documentos pessoais do jornalista e fizeram perguntas sobre seu comportamento.
À noite, o comandante-geral da PM, coronel Gilson Pitta Lopes, disse não ter partido nem dele nem do comando do Estado-Maior da corporação ordem para que PMs fossem à casa do jornalista. Por volta das 19h30, um PM fardado encontrava-se na porta do prédio em que mora Gomide.
Pitta Lopes afirmou que determinou abertura de averiguação sumária para apurar o que levou os policiais ao endereço, "para dar uma resposta imediata''. De acordo com ele, a PM tem como tarefa acompanhar o cotidiano daqueles que deixam a corporação. Mas reconheceu que visitas como a de hoje "não são rotina''.
A averiguação sumária poderá resultar em IPM (inquérito policial militar) caso conclua que houve irregularidades na ida dos policiais ao prédio de Gomide. O comandante-geral afirmou que a investigação interna foi ordenada pelo governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e pelo secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame.
Cabral Filho afirmou hoje, em Paris, ter determinado ao secretário de Segurança "rigor máximo'' para investigar a presença dos PMs no prédio em que mora o repórter.
"O governador não tolera e não aceitará qualquer ação de ameaça ou intimidação à liberdade de imprensa -muito menos em seu governo'', diz mensagem divulgada pelo Núcleo de Imprensa. Conforme o texto, Cabral Filho "determinou que as apurações sejam feitas o mais rapidamente possível'' para identificar os "envolvidos nesta atitude absolutamente abominável e condenável''.
Reportagem positiva
Os dois policiais que estiveram de manhã na casa de Gomide trabalham no Centro de Recrutamento e Seleção da PM. Segundo Pitta Lopes, a ordem para que fossem ao prédio partiu do comando da unidade.
Para ele, a presença dos policiais no edifício de Gomide não deve ser interpretada como uma ação intimidatória.
"Em momento algum houve por parte do comando da corporação demanda para proceder de forma ameaçadora ou intimidatória. Eles [os PMs] se apresentaram como policiais militares, disseram o motivo pelo qual estavam ali e foram muito bem recebidos'', afirmou o coronel.
"A matéria foi muito bem escrita. Não vimos nada de negativo para a nossa instituição. O jornalista não viu apenas as nossas mazelas. Encaramos [a reportagem] como positiva. A reportagem foi muito bem aceita pelo comando da corporação. A imprensa é bem-vinda. A PM sempre demonstrou transparência'', afirmou o comandante da PM.
De acordo com o comandante-geral, as informações contidas na reportagem serão aproveitadas pela PM na preparação de novos cursos de recrutamento. "É mais uma lição'', acrescentou ele, que pediu "mil desculpas'' ao jornalista pelo incômodo causado.
Folhapress